Outro dia acordei de cara amassada, olhei-me no espelho examinei olheiras e a calva indesejada. Estava nisso quando me veio à mente uma frase: diz-me como tratar os velhos e eu te direi quem tu és. Meu plágio ao dito popular se impõe. Na maneira de tratar os velhos está patente o coração das pessoas ou das sociedades.

O velho sobra, o velho cansa, o velho chateia, o velho fala demais, o velho sabe tudo, o velho sabe, o velho não tem paciência, o velho é fraco, o velho nada mais teme. O velho não tem tempo para ser hábil ou diplomático...Até a palavra velho" carrega preconceitos. O chique é dizer "idoso".

E quantas vezes, no meio da frase inoportuna, fora de hora, dita em tom irritado e irritante, está algo de cristalina lucidez? Justamente aquela que não queremos ouvir. Sim porque observações da maior lucidez são ditas pelos velhos exatamente no momento em que não a queremos. Se fosse possível a quem experimente e lúcido separar o que foi dito de maneira como e quando foi, muitos impasses seriam evitados e nós idosos teriamos mais êxito com quem desejamos ajudar com a experiência.

Um dos sentimentos dolorosos para pessoas de qualquer idade é o da rejeição. Ser rejeitado dói, e como! O filho que nega o abraço porque está brincando; o amigo que escamoteia uma gentileza possível; o sujeito do banco que nos atende como a um inimigo; e ainda aquelas rejeições que sem o perceber fazemos ou sofremos. Rejeição dói muito ! É mais frequente das atitudes entre as pessoas pois ao lado das rejeições objetivas, há aquelas outras, inconsistentes e subjetivas que deixam marcas definitivas. Existe algo pior do que as pequenas indiferenças nem percebidas por quem as pratica?

O pior da velhice é a tendência de ser perceber rejeitado ou até ampliar a rejeição real; é merecer palavra apenas da gentileza, alguns sorrisos amarelos, a voz levemente adocicada num tom diferente do natural, igual a como se muda de entonação para falar com as crianças. O idoso percebe. Em geral se cala e sofre. Por isso este texto algo caturra:

"DIGA-ME COMO TRATA OS IDOSOS E TE DIREI QUEM ÉS"

ARTHUR DA TÁVOLA