Quando o Primado de Umbanda, começou a organizar as comissões que iriam compor os respectivos grupos de estudos do II Congresso Brasileiro de Umbanda, que se realizou no Rio de Janeiro, viemos a conhecer o Coronel Gamaliel, reformado pela FAB. Fora convidado pelos organizadores para integrar a Comissão de Cultos, justamente com vista à Nação Nagô, a qual se dedicara e era zelador respeitado de uma Casa no município de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro.


Alto, magro, aparentando na época 60 anos de idade, lépido, bonachão ,com seu inseparável cigarro, tranquilo, consciente de seus conhecimentos, era amigo de meu pai Henrique Landi Jr, e participou dos rituais de fundação da Fraternidade da Luz, aqui na Rua Joaquim Martins.


Conhecia bem o ritual de Umbanda, embora pertecensse e praticasse a Nação Nagô.


Era amigo de meu pai e logo tornou-se também meu amigo. Conversávamos muito sobre o Culto Nagô, que ele praticava e considerava puro aqui no Brasil, onde eu viria um pouco mais tarde juntamente com o Jair Amorim (poeta-letrista da MPB), fazermos a iniciação nesta Nação.


Iamos com bastante frequência à Caxias, na sua roça, onde ele nos ensinava e explicava o que nós deviamos saber para participarmos dos rituais iniciais do Bori, com uma permanência em camarinha de 72 horas ininterruptas.


A sua casa tinha uma organização impecável. Na entrada pelo lado esquerdo o barracão, o terreno era em aclive com aproximadamente 50 metros de extensão, por 20 metros de
largura por ambos os lados e todo murado.


Lá no alto o Pegi, tendo de cada lado uma camarinha, uma destinada ao filho e outra ao pai, que ali permanecia enquanto o filho estivesse recolhido. Do lado de fora, na frente do Pegi, no chão em alvenaria o ponto cabalítico de Anna Tung, com uma imensa pedra de raio fixada no centro, era de Xangô o seu Orixá Regente (ou frontal).


Após a nossa iniciação eu comparecia, quando o tempo permitia, lá na roça, para acompanhar alguns trabalhos de magia e etc. Havia um excelente relacionamento de amizade entre nós, que permitia críticas e brincadeiras, e certa feita acompanhando um trabalho que ele estava fazendo na casa do Marabô entre outros a descarga com fogo utilizando a tuia (pólvora) e quando isso acontecia ele pegava certa quantidade de tuia, colocava em um pequeno caldeirão de ferro forjado e não ateava fogo, vinha para fora da casa e então de lá, chamava pelo nome em Yorubá do Marabô e ali a pólvora incendiava.


Ele agradecia e ia embora.


Eu observava detalhadamente a preparação deste trabalho e não havia encontrado uma explicação visível. Como eu estudara profissionalmente química, sabia que quando você adiciona determinadas substâncias a outras, provoca uma reação geradora de calor intenso e consequentemente a combustão. Aí em tom de brincadeira eu disse que era capaz de fazer a pólvora incendiar sem tocar nela e dei a explicação acima, utilizando outra substância que eu iria adicionar a ela, o que provocaria a sua combustão espontânea, que juntaria sem que ninguém percebesse.


Aí o meu amigo me respondeu:

 

" Filho, no próximo trabalho, em que iremos utilizar a tuia (pólvora), você estará comigo e observará passo a passo, o que vou fazer, só que tem um detalhe que escapou à sua arguta sensibilidade, é o tempo de combustão que só acontece quando eu chamo pelo meu amigo Marabô."

 

No próximo trabalho, lá estava eu, ele preparou tudo ás 10:00 horas da manhã (eu acompanhando), colocou na casa do Marabô, às 12:00 horas me convidou para almoçar, por volta das 15:00 voltamos ao local onde estava o caldeirão, chamou pelo nome do seu amigo Exu, como sempre fazia em Yorubá, e a pólvora incendiou...


Coronel Gamaliel, onde você estiver, no plano espiritual ou reencarnado, receba um grande abraço fraterno, do seu irmão brincalhão Henrique Landi Neto.

Henrique Landi Neto