"FILHO, NÃO FOGE À TUA LUTA !" - LUTO PELA PASSAGEM DE MÃE EULINA D´YANSÃ - A Eterna " RAINHA DA VOZ"

 

Hoje o galo não cantou. Talvez porque estava triste. Talvez porque seu canto anunciaria o amanhecer de um dia que  tínhamos esperanças de nunca chegar. Mas chegou! Talvez porque seu canto queira dizer “vamos acordar, guerreiros, para mais um dia de luta!”


Hoje o dia não poderia ter amanhecido... O galo não cantou...Porque hoje, nem todos os guerreiros iriam acordar...

 

Mãe Eulina era uma pessoa comum e ao mesmo tempo não era! Tinha mil defeitos, mil qualidades, mas um diferencial: amor e ódio por ela eram sentimentos que se transmutavam num único sentido: RESPEITO !


Respeito por que aquela mulher que abdicou da maior parte dos prazeres da vida em função de uma guerra-santa. Se dedicou de corpo e alma à uma luta sem tréguas, sem ganhadores, sem perdedores: ACABAR COM A DISCRIMINAÇÃO ÀS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS, MANTÊ-LAS NO MESMO PATAMAR DAS RELIGIÕES CRISTÃS.


Para essa luta, Oxalá lhe deu escudos... E Iansã lhe deu forças e uma arma poderosa: sua voz!

 

Hoje o galo não cantou! E o canto de Eulina não irá mais ecoar pelas paredes da Cabana...

 


Acredita-se que sua forma de guerrear não tenha sido tão bem compreendida. Talvez a mensagem final somente poderia ser entendida quando sua voz se calasse. O que diriam os Deuses que ela tanto amava? 


“Filho meu, eu não quero seu altar dourado. Não quero suas vestes prateadas, nem sua oferenda de ouro. Filho meu, não quero a tua vaidade! Filho meu, quero apenas o seu coração puro. Quero que você entenda que seu irmão é igual a você, com defeitos e qualidades. Quero que você entenda que sem o seu irmão, você não é nada, pois é o seu irmão quem te completa. Se o seu coração não for puro para aceitar o outro, eu também não poderei entrar nele. Pois eu estou no outro! E sem irmão, a religião não cria forças. Sem a união de todos, passando por cima das diferenças, a religião não existe! Filho meu, essa luta é eterna... Mas não pode ser em vão!”

 


Hoje as cores de Oxalá amanheceram mais brancas, pois Iansã levou sua filha guerreira para o merecido
descanso. Certamente, nesse momento ela repousa tranquila, acalentada na santa palha de Mestre Omulu, que sempre esteve presente em sua vida.

 


Hoje o galo não cantou... Mas amanhã ele volta a cantar. É preciso acordar outros guerreiros para uma
nova luta. A mensagem já foi entendida!

 

 

 

Elaine Pereira