Hoje faz um mês que minha mãe fez passagem... E somente hoje é que consigo escrever alguma coisa e dispor de algumas idéias... É certo que não dormi praticamente a madrugada inteira. Á todo instante da minha insônia eu acompanhava os ponteiros do relógio e relembrava de cada momento daquela noite...Do meu desespero, da minha dor e, principalmente da dor do meu irmão caçula e nos demais parentes que eu teria que notificar. E pensei na efermidade de tudo aquilo que passamos por esta vida e do que vamos deixar. No nosso egoísmo humano, na questão de termos sempre que nos aprimorar de alguém, sem olhar para o lado e perceber que existem outras pessoas que gostariam tanto de ter aquela atenção. Pessoas que só vão passar pela nossa vida se a gente quiser que elas estejam pelo caminho, pois não temos laços. Se não quisermos, elas não existirão. Pois o "laço" é a gente que faz...E corta ! Mas temos que deixar nossa marca em algum instante...

Minha mãe não era a melhor pessoa do mundo. Não tinha instrução, não dava demonstrações de amor, mas tinha sonhos. E na realização de tudo o que ela não conseguiu ser, me criou. Ela chorava escondida ao ver as demais crianças não me chamarem para brincar , só porque era filha da "faxineira". Chorava escondida quando não tínhamos o que comer e quando me via bater na porta do vizinho perguntando se não queriam uma ajuda no serviço doméstico e assim, poder ganhar uns trocados para o pão... Porém a lembrança mais forte é quando ela chorava de alegria ao ver o meu boletim como a melhor aluna...Chorava de alegria ao contar para os vizinhos sobre o meu 1º emprego...E de quando passei no vestibular ! E na minha atuação como voluntária em orfanatos...Percebo agora que fui criada para ser forte! Um dia eu poderei ser igual a ela ou tão diferente dela...

Pela manhã meus irmãos me ligaram, pedindo uma palavra de consolo pela passagem desta data. Mal sabem eles que me peguei chorando escondida, assim como ela fazia...Não pela dor da perda, pois eu não a perdi. Mas a sensação é que um pouco da nossa história se foi. Que é preciso recomeçar a história, recontando do nosso jeito. E que nem sempre crescer significa ser maduro. A gente pode crescer errado também. Chorei por tantas coisas que eu vinha dando valor e que agora não possuem muito sentido... Chorei pelas muitas vezes em que dei mais valor ao conceito que as "outras pessoas" faziam de mim...E do que eu poderia mostrar a elas da minha capacidade.

Acabei me perdendo no caminho do "crescer"...

Talvez eu não esteja sendo muito clara. A mensagem que eu quero deixar é que, na maioria das vezes, somente um evento de grande impacto na nossa vida é que nos faz parar para pensar no rumo que estamos tomando. Ou quando estamos perdendo o rumo. Na nossa insignificância diante do sofrimento alheio, da nossa incapacidade de mostrar que somos fracos...que amamos !

Hoje, repenso meus valores ! Não posso dizer que estou feliz, pois a saudade da minha mãe é imensa, mas posso afirmar que estou um pouco mais consciente e parando para pensar um pouco mais...Infelizmente, não vou poder passar pela vida sem magoar alguém que me ame. Mas certamente quero passar pela vida de forma mais sincera e tranquila comigo mesma, para que eu possa transmitir essa mesma energia àqueles que estiverem comigo.

Obrigada a todos pelo apoio e carinho de sempre

Elaine Pereira